Sermão

04/03/09
Miquéias 1.1
O Homem, seu Tempo e sua Mensagem

INTRODUÇÃO

O profeta Miquéias está nas ruas. Sua mensagem está estampada nos jornais e suas manchetes se multiplicam nos outdoors, ao longo de nossas avenidas. A atualidade desse profeta rural é perturbadora. Ele toca nos temas mais polêmicos e denuncia os crimes mais hediondos, que ainda hoje afligem o povo tanto na cidade como no campo.

Miquéias não é um profeta da conveniência. Ele ergue sua voz e denuncia a arrogância dos poderosos, a truculência dos ricos e a deslavada injustiça dos tribunais; também emboca sua trombeta para condenar a conveniência vergonhosa dos profetas e sacerdotes que, por ganância, ajudam a sustentar um sistema injusto e opressor.

Os tempos mudaram, mas o homem não. A despeito de toda a nossa prosperidade, e avanço científico; a despeito dos direitos internacionais serem promulgados e o respeito à soberania nacional garantida por lei, a desintegração de nossa sociedade avança a passos largos e resolutos. Os valores morais estão sendo demolidos. As pilastras sustentadoras da ética estão sendo dinamitadas. A corrupção endêmica e sistêmica está invadindo os poderes constituídos, enfiando suas garras em todos os setores da sociedade, num esquema vergonhoso de assalto ao erário público. A roubalheira é feita à luz do sol, sem nenhum pudor e sem qualquer punição. Mas a desconstrução da sociedade não está apenas no cenário político. A igreja também está perdendo sua identidade. A secularização invade as igrejas. As pessoas se tornaram cada vez mais religiosas e afastam-se cada vez mais de Deus. Há um abismo entre o que as pessoas professam e o que elas praticam. Há uma inconsistência entre sua teologia e sua ética. Por outro lado, o sincretismo religioso invade o arraial evangélico brasileiro. Pregadores inescrupulosos mudam a mensagem do evangelho, para atrair os incautos e auferir gordos lucros. A religião está se transformando em negócio rendoso. Esses aventureiros da fé introduzem no culto, rituais e práticas estranhos à Palavra de Deus, mantendo o povo, desprovido de conhecimento, no cabresto do misticismo.

Nos dias de Miquéias o crime estava em alta e os valores morais em baixa. Essa realidade ainda é a mesma. As famílias estão se desintegrando. Os alicerces da virtude estão entrando em colapso. Os escândalos se multiplicam a partir dos palácios até as choupanas. O próprio povo da aliança está se desviando da verdade e entregando-se a rituais religiosos eivados de misticismo. A linha divisória entre o certo e o errado está confusa. Nossa sociedade aplaude a ignomínia e faz troça da virtude. Chama luz de trevas e trevas de luz. Estamos num atoleiro moral. Estamos no epicentro de uma baita confusão. Estamos vivendo a época de uma lógica ilógica, de uma retórica vazia, de ideologias falsas e de uma fé sincrética. Estamos precisando de novos Miquéias, que saiam às ruas, que ergam sua voz, que emboquem a trombeta para dentro dos templos e para dentro dos palácios. A voz de Deus precisa ser ouvida nos centros nevrálgicos da economia, nos corredores do comércio e nos bastidores do poder.

Vamos destacar alguns pontos importantes na introdução do livro de Miquéias.

I.O HOMEM (1.1)

Antes de falar da mensagem, vamos receber um pouco de luz acerca do mensageiro. Três coisas merecem destaque:

Em primeiro lugar, o nome do profeta (1.1). O nome "Miquéias" era muito comum em Israel. O Antigo Testamento faz referência a cerca de doze pessoas que receberam nomes análogos. Este Miquéias é distinguido dos demais pela sua procedência geográfica, bem como pelo tempo preciso de sua profecia. O hebraico é Miqayah, composto de três palavras: Mi qah yah, cujo significado é "Quem é como Iavé". O nome do profeta é uma indagação exclamativa, como se fosse uma espécie de desafio. Seu nome, na verdade, era um constante desafio à nação que abandonara sua fidelidade a Deus para flertar com as divindades pagãs de outros povos. George Robinson diz que o nome do profeta: "Quem é como Iavé" era em si mesmo um credo ortodoxo num tempo de apostasia (1.1; 7.18; Jr 26.18). Isaltino Filho nessa mesma linha de pensamento afirma: "Há realmente uma coincidência muito grande entre o significado dos nomes dos profetas e a mensagem anunciada por eles. Sua mensagem já está, em boa parte, no sentido dos seus nomes".

Em segundo lugar, a procedência do profeta (1.1). O profeta nasceu na Judéia, profetizou em Jerusalém, e era jovem contemporâneo de Isaías (1.1; Is 1.1). Como contemporâneo de Isaías, de Oséias e de Amós, ele trabalhou na última metade do século oitavo antes de Cristo. Miquéias era um caboclo, nascido na pequena vila de Moresete, há trinta e dois quilômetros a sudoeste de Jerusalém. Crabtree destaca que Miquéias morava na região da entrada dos assírios na Palestina, e observou as invasões sucessivas destes inimigos poderosos e cruéis do seu povo. Ele sabia da queda de Damasco sob o poder da Assíria em 732 a.C., e do fracasso da aliança política Síria-Israel. Dez anos depois, em 722 a.C., a capital do reino de Israel, Samaria, caía no poder dos assírios, depois de três anos de sítio. A política vacilante de Israel, em sua aliança com o Egito, no esforço de manter a sua independência, falhou, e Israel desapareceu como nação.

Vale à pena observar a origem humilde do profeta. Moresete-Gate não tinha qualquer relevância econômica ou política. Miquéias não nasceu num grande centro urbano nem tinha familiaridade com os poderosos de sua época. Não era de fina estirpe nem ostentava qualquer medalha de honra ao mérito. Isso nos ensina que Deus não precisa de figurões para fazer sua obra. Deus não precisa de estrelas para levar adiante a sua causa. Talvez um dos mais graves pecados da igreja contemporânea é que muitos pregadores e cantores são tratados como astros, como estrelas. Há muitos obreiros que se julgam importantes demais. Mas, as estrelas só brilham quando o sol não está brilhando. Onde o Sol da Justiça estiver brilhando não há espaço para os homens brilharem.

Em terceiro lugar, a personalidade do profeta (3.8). Não encontramos no livro de Miquéias como foi o seu chamado para o ministério profético, mas temos evidência clara dessa convicção. Ele mesmo revela o segredo do seu poder: "Eu, porém, estou cheio do poder do Espírito do Senhor, cheio de juízo e de força, para declarar a Jacó a sua transgressão e a Israel, o seu pecado" (3.8). George Robinson diz que Miquéias estava cheio de simpatia leal pelos tiranizados. Sua sinceridade não fingida contrastava notavelmente com os ensinos lisonjeiros de seus contemporâneos, que, como falsos profetas, mudavam sua mensagem, conforme seus soldos (3.5).

Em quarto lugar, o estilo do profeta. Para muitos eruditos, Miquéias é o favorito dos profetas menores. Seu livro é um dos mais destacados quanto ao estilo. Se você aprecia a beleza de linguagem, a poesia e a literatura, então, você apreciará o livro de Miquéias. Embora Miquéias fosse um caboclo, foi considerado "profeta da cidade". Também foi conhecido como "profeta do julgamento". Aage Bentzen é da opinião que Miquéias era um ardente crítico das grandes cidades, que aos seus olhos eram a desgraça da nação (1.15).

Em quinto lugar, os contemporâneos do profeta (1.1). Miquéias profetizou no mesmo período de Amós, Oséias e Isaías. Esse foi o tempo áureo da profecia tanto em Israel como em Judá. Miquéias denunciou com veemência a injustiça social como Amós, mas tinha o coração amoroso de Oséias. Houve semelhanças notáveis entre as profecias de Isaías e Miquéias. Vejamos algumas delas: 1) Ambos profetizaram a iminente invasão da Assíria sobre Judá (Is 10.1-4; Mq 5.5); 2) Ambos falaram do livramento de Judá, dizendo que a Assíria não prevaleceria (Is 37.33-35; Mq 5.6); 3) Ambos enfatizaram a inutilidade de uma religião meramente ritual e mostraram o tipo de conduta religiosa que Iavé esperava de seu povo (Is 1.11-18; 29.13; 58.1-14; Mq 3.9-11; 6.6-8); 4) Ambos profetizaram a vinda do Messias, sendo que Isaías falou de seu nascimento virginal (Is 7.14), enquanto Miquéias falou do local do seu nascimento (Mq 5.2); 5) Ambos profetizaram o livramento final de Judá, precedido por um arrependimento da nação.

Alguns eruditos chegam a afirmar que a profecia de Isaías é uma ampliação de Miquéias. Enquanto Isaías era um profeta palaciano, de língua melíflua, de estirpe fidalga, com trânsito livre no paço real, em cujas veias corriam o sangue azul da nobreza, Miquéias era camponês, oriundo de Moresete-Gate, uma aldeia cerca de trinta e dois quilômetros ao sudoeste de Jerusalém. Isaías, natural de Jerusalém era um estadista, conselheiro dos reis e afeito aos assuntos nacionais e internacionais. Miquéias longe do bulício das cidades ouvia o grito dos oprimidos, seus contemporâneos. George Robinson diz que enquanto Isaías tratou das questões políticas, Miquéias tratou quase exclusivamente da religião pessoal e da moralidade social. J. Sidlow Baxter fala da probabilidade de que o ministério de Isaías tenha sido para as classes superiores, e o de Miquéias, para as inferiores.

Clyde Francisco destaca o fato de que, embora contemporâneos, Miquéias e Isaías nunca se referem um ao outro. Uma importante referência à vida e influência de Miquéias encontra-se em Jeremias, capítulo 26. Jeremias foi preso por pregar a destruição de Jerusalém; em sua defesa, alguns de seus amigos afirmaram que Miquéias tinha já feito as mesmas declarações e nada lhe havia acontecido; muito pelo contrário, que o povo tinha se arrependido dos seus pecados, evitando, assim, a ruína da cidade. Como resultado disso, Jeremias foi também poupado.

II. O SEU TEMPO

Miquéias profetizou num período de declínio do Reino do Norte e de grandes tensões políticas e religiosas do Reino do Sul. Ele profetizou durante os reinados de Pecaías, Peca e Oséias em Israel, e de Jotão, Acaz e Ezequias, em Judá (2Rs 15.23-30). Aquele era um tempo de rápidas transformações sociais, em que ocorriam profundas alterações na estrutura econômica de Judá. Estava surgindo uma nova classe de comerciantes e proprietários de terras, que lançavam mão de expedientes legais para enriquecer a custa dos que haviam sido tirados das áreas rurais e assentados nas zonas urbanas. Tanto os líderes civis quanto os religiosos haviam-se unido a essa classe de novos ricos para obter o que pudessem para si mesmos, diz Richard Sturz.

No tempo do profeta Miquéias, portanto, a população rural migrava para Jerusalém em busca de estabilidade econômica. Essas pessoas, em vez de achá-la, eram exploradas por essa crescente classe de novos ricos. E, com o tempo, elas perdiam suas casas e terras. Os ricos ficavam mais ricos e os pobres mais pobres. Paralelamente a essa opressão econômica, o povo mantinha sua atividade religiosa. Miquéias, então, ergue sua voz para lembrar Judá que a aliança de Deus exigia mais que meras práticas religiosas (6.8).

Sua maior obra foi realizada no reinado de Ezequias, que ficou profundamente impressionado por suas profecias (Jr 26.10-19). Sua profecia da destruição de Jerusalém foi um meio indireto de salvar a vida de Jeremias, quando este aguardava ser executado por fazer uma predição semelhante (Jr 26.10-19). Para melhor compreensão, vamos destacar cinco aspectos do seu tempo.

1. O contexto político

Miquéias deve ter profetizado num período superior a quarenta anos. Nesse tempo a Assíria estava se tornando a grande potência mundial. O Reino do Norte entrou em aliança com a Síria para atacar Judá, o Reino do Sul. Para proteger-se dessa invasão, o rei Acaz pediu ajuda à Assíria. Tiglate-Pileser retorna ao oeste em 734 e conquista Damasco, a capital da Síria, em 732 e conquista Samaria, capital de Israel, em 722, depois de três anos de cerco. Depois que a Assíria dominou a Síria e Israel, voltou-se também contra Judá. Para evitar uma conquista assíria, Judá aceita o papel de vassalo, pagando tributo à Assíria (2Rs 16.5-18). Samuel Schultz narra estes acontecimentos assim:

O sol estava se pondo sobre a era de prosperidade e de prestígio internacional de Judá, quando Miquéias apareceu. Uzias, cujos interesses comerciais penetravam na Arábia e cujo poder militar poderia desafiar os exércitos assírios que avançavam do norte, faleceu em 740 a.C. Jotão manteve o status quo por diversos anos mais, enquanto Peca desenvolvia uma política anti-Assíria em Samaria. Por volta de 735 a.C., o partido pró-assírio, em Jerusalém, instalara Acaz no trono davídico. No espaço de poucos anos, esse jovem rei havia firmado uma aliança com a Assíria, o que, em essência, reduzia-o à posição de um rei vassalo de Tiglate-Pileser III. Durante as duas décadas desse relacionamento judaico-assírio, os reinos da Síria e de Israel entraram em colapso sob as forças assírias que avançavam.

A Assíria tinha iniciado a sua campanha militar a oeste, e estava subjugando e exterminando as pequenas nações vizinhas de Judá. Esta, por sua vez, ficava no caminho da marcha da Assíria, no plano de conquistar o Egito. Em 701 a.C., o poderoso exército da Assíria tinha conquistado o território de Judá e avançado até as portas de Jerusalém, porque os judeus deixaram de pagar o pesado tributo depois da morte do rei Sargão II em 705 a.C. Senaqueribe, sucessor de Sargão II, chegou a sitiar Jerusalém, mas seu propósito foi frustrado por intervenção sobrenatural de Deus (2Rs 18.13-19.36). Uma vez que Judá não se arrependeu de seus pecados, Miquéias profetizou a destruição de Jerusalém.

Foi nesse tempo de tensões e profundas mudanças no mapa político do mundo; foi nesse tempo de muitas e freqüentes guerras que Miquéias foi levantado por Deus como profeta em Israel, e, sobretudo, em Judá. Miquéias chegou a testemunhar a queda de Samaria e o cerco de Jerusalém, fatos esses, que ameaçavam de destruição o povo do Senhor.

2. O contexto econômico

A primeira metade do século oitavo foi um período de grande prosperidade material para Israel, sob o governo de Jeroboão II e para Judá, sob o comando de Uzias. A Assíria ficou preocupada nesse período com os seus problemas internos, enquanto Israel e Judá viveram tempos de trégua, sem brigar entre si.

A época de ouro de prosperidade e paz já fazia parte do passado. Agora, tanto a política interna quanto a externa sobrecarregava o povo com pesados impostos. Os reis de Judá estavam em guerra com seus vizinhos Israel e Síria e também ameaçados de uma avassaladora invasão assíria. As obras de proteção da cidade de Jerusalém custaram pesados tributos ao povo. Senaqueribe sitiou e tomou quarenta e seis cidades com suas aldeias vizinhas, no território de Judá (1.13; 2Rs 18.17; 19.8). Ezequias precisou pagar pesado tributo ao rei da Assíria (2Rs 18.13-16). Só por intervenção divina, Jerusalém também não caiu nas mãos do rei da Assíria (2Rs 18.17-19,36).

Nesse tempo de crise, os ricos mancomunados com os líderes religiosos e civis, exploraram os pobres e tomaram seus campos e casas. A opressão econômica fez amargar a vida dos campesinos. A injustiça social campeava na cidade e no campo. Em tempo de crise, os corruptos sempre buscam expedientes nefastos para auferirem gordos lucros.

George Robinson faz um relato contundente acerca das questões econômicas desse período: Sob Jotão reinou um luxo esplêndido. Sua ambição de construir fortalezas e palácios em Jerusalém custou a vida de muitos campesinos. Sob Acaz, Judá foi forçada a pagar tributo a Assíria. Além disso, houve pesados custos da guerra siro-efraimita, que caíram como uma carga pesada sobre todas as classes. Tanto os ricos como os pobres sofreram. Nesse tempo, os fazendeiros endinheirados, egoístas e avarentos usaram seu poder para oprimir os pobres, confiscando suas terras, casas, bens e lançando fora as viúvas para fora de suas casas. Nesse tempo se cometeu toda classe de crimes e os ricos devoraram as carnes dos pobres. Sob Ezequias, que procurou reformar o Estado, as condições se fizeram ainda mais desesperadoras. Os homens deixaram de confiar um no outro. Jerusalém se encheu de facções e intrigas. Os conselheiros do rei se dividiram na política, alguns advogando por aliança com o Egito contra Assíria, outros por submissão a Assíria. Os príncipes abusaram de seu poder. Os nobres roubavam os pobres. Os juízes aceitavam suborno. Os profetas adularam os ricos e os sacerdotes ensinavam por soldo. A cobiça da riqueza dominava por todos os lados. Os tiranos opulentos escarneciam da possibilidade de serem apanhados. O materialismo suplantou quase o último vestígio do ético e do espiritual.

3. O contexto moral

A corrupção política e econômica, acobertada pelos juízes, sacerdotes e profetas fez das cidades redutos de desavergonhados pecados. Os valores morais foram tripudiados. A virtude escarnecida. Os pobres não tinham vez nem voz. Os ricos, embriagados pela ganância, assaltavam os pobres indefesos sem qualquer possibilidade de resistência. Os tribunais foram comprados por suborno. Os profetas calaram sua voz por conveniência. Os sacerdotes venderam sua consciência por dinheiro e prostituíram seu ministério. O descalabro moral atingiu toda a sociedade.

Walter Kaiser Jr. faz um diagnóstico dessa sombria realidade, nestes termos: Miquéias clamou contra o pecado de Israel e de Jacó. Os pecados deles passaram por toda a gama de maldades, incluindo a idolatria (1.7a), a prostituição (1.7b), gula e cobiça (2.1,2), perversão da verdadeira doutrina e religião (2.6-9; 6.2-7), falsos profetas (3.5,6), ocultismo (3.7) e presunção (3.9-11). Repetidas vezes tinham violado os Dez Mandamentos: a assim chamada segunda tábua (6.10-12) e a primeira tábua (6.13-15).

4. O contexto religioso

A situação religiosa do Reino do Norte, marcada pela idolatria, foi de mal a pior até que o cálice da ira de Deus se encheu, e a Assíria cercou, invadiu e tomou a cidade de Samaria. Esse Reino perdeu sua autonomia política e jamais foi restaurado.

O Reino do Sul, numa alternância entre altos e baixos, não conseguiu realizar uma reforma espiritual profunda, mesmo no tempo áureo do rei Ezequias. O povo era religioso, ia ao templo e fazia suas ofertas, mas sua vida estava divorciada da sua fé. Havia um abismo entre o que eles professavam e o que eles faziam. Havia um profundo conflito entre a teologia e a ética. Essa inconsistência perturbou Miquéias e uma única declaração, engloba a ênfase de Amós na justiça (Am 5.24), a preocupação de Oséias por misericórdia (Os 6.6) e a súplica de Isaías por um andar humilde com Deus (Is 2.11; 6.1-8). Nas suas palavras: "Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus" (6.8). Assim, Miquéias ensinou que a verdadeira religião leva a pessoa a uma comunhão íntima com o Senhor, e que, dessa comunhão, emana conduta íntegra para com os membros da raça humana. Concordo com Russell Norman Champlin quando disse que para Miquéias, a fé em Iavé deve resultar em justiça social e santidade pessoal. Nos dias de Miquéias, Jerusalém estava eivada de falsos profetas e falsos sacerdotes. Richard Sturz diz que a decadência espiritual de Judá deveu-se a quatro grupos:

Em primeiro lugar, os reis. Judá era uma monarquia absolutista. O Estado não era laico. A adoração ficava sob a autoridade do rei, ainda que os sacerdotes fossem os responsáveis pelas práticas cerimoniais. O rei Acaz introduziu um altar pagão no templo de Jerusalém, mudando radicalmente o padrão de adoração (1Rs 17.7-18).

Em segundo lugar, os príncipes. Abaixo do rei, o país era administrado por príncipes, autoridades hereditárias das tribos e dos clãs. Miquéias chama esses príncipes de "cabeças" e "chefes" (3.1). Esses líderes estão dominados pela ganância e pela avareza.

Em terceiro lugar, os sacerdotes. Os sacerdotes estavam usando indevidamente a responsabilidade de ensinar o povo (3.11). Oséias, contemporâneo de Miquéias, diz que o povo estava sendo destruído porque os sacerdotes não lhes ensinavam a lei (Os 4.6-9). A falta de pessoas instruídas era um mal infligido a Judá (2.5).

Em quarto lugar, os profetas. Enquanto os cargos de príncipes e de sacerdotes eram hereditários, o de profeta dependia de um "chamado" de Deus. Miquéias acusa os profetas de sua época de moldar a mensagem aos desejos de seus mantenedores (2.11; 3.5). Haviam-se tornado adivinhadores em troca do pão de cada dia (3.11). Miquéias não era do mesmo estofo desses profetas da conveniência.

III. A SUA MENSAGEM

A mensagem de Miquéias concentra-se nos temas da injustiça social, verdadeira adoração e falsa segurança. J. Sidlow Baxter diz que o livro de Miquéias consiste em três discursos, cada um iniciado pela palavra: "ouvi" (1.2; 3.1; 6.1). Essa é uma divisão de acordo com a forma literária, não com o assunto, ficando assim: 1) Declaração de juízo iminente (1-3); 2) Promessa de bênção final (4-5); 3) Pedido de arrependimento presente (6-7). George Robinson por sua vez entende que a melhor análise da profecia de Miquéias deveria ser assim: 1) Juízo (1-3); 2) Consolo (4-5); 3) Caminho da salvação (6-7). J. Vernon McGee, usando o significado do próprio nome do profeta: "Quem é como o Senhor?" oferece um sugestivo esboço do livro: 1) Proclamando futuro julgamento por pecados passados (1-3); 2) Profetizando futura glória por causa de promessas passadas (4-5); 3) Rogando presente arrependimento por causa da redenção passada (6); 4) Perdoando toda iniqüidade por causa de quem Deus é e do que Deus faz (7).

O pensamento central é este: juízo presente, mas bênção futura. O juízo presente é provocado pela infidelidade de Israel à aliança. A bênção futura deve-se à fidelidade imutável do Senhor para com ela. Concordo com Isaltino Filho quando diz que o tema de Miquéias é: Iavé é juiz justo e perdoador benigno. Ele não é uma divindade restrita a um prédio, que chamamos templo, e a um momento, que chamamos de culto. É o Deus de todas as áreas da vida.

O profeta Miquéias pregou três grandes mensagens:

1. Uma mensagem ameaçadora de juízo

Charles Feinberg corretamente diz que se a mensagem de Jonas é o amor de Deus a todas as nações, a de Miquéias é o juízo contra Samaria e Jerusalém. As profecias desse livro destinam-se especialmente às capitais que, como centros urbanos, influenciam a nação toda. Miquéias ergueu sua voz altissonante contra os pecados da cidade de Jerusalém e Samaria, anunciando o julgamento iminente por causa da violência, da injustiça social e de uma religiosidade fingida. Ele denunciou com veemência a opressão dos pobres pelos ricos. Ele desmascarou os profetas da conveniência. Ele mostrou a desfaçatez dos sacerdotes que se vendiam por dinheiro. Ele pôs o dedo na ferida e diagnosticou os males crônicos que adoeciam a nação. Miquéias de forma contundente mostrou que o pecado atrai o juízo de Deus e os pecadores não ficarão impunes. Jack Miles chegou a dizer que em Miquéias Iavé é revelado mais como "um juiz internacional do que como um monarca".

Isaltino Filho diagnostica os males que atraíram o justo juízo de Deus: O livro de Miquéias é o evangelho da justiça social. Ele denuncia a opressão do fraco, o suborno entre os líderes, a expulsão de mulheres dos seus lares, a prática de toda espécie de roubo, grande parte dele em nome da religião (2.1,2,9; 3.2,9-11; 6.7,8,11,12; 7.2-6). Miquéias condena principalmente as classes superiores por sangrarem os pobres e indefesos (3.1-3). Tirar proveito dos pobres significa incorrer na ira do Todo-poderoso (6.11-16).

2. Uma mensagem de apelo ao arrependimento

Miquéias não apenas fez o doloroso diagnóstico, ele também ofereceu o remédio. Ele não apenas denunciou o pecado, mas também chamou o povo ao arrependimento. A saída para a nação não era fazer vistas grossas ao pecado nem buscar alianças políticas para se protegerem, mas se voltarem para Deus em sincero arrependimento. O verdadeiro problema da igreja não é a presença ou ameaça do inimigo, mas a ausência e o distanciamento de Deus.

O profeta Miquéias chama o povo ao arrependimento, mostrando-lhe que os desajustes sociais, a opressão política e a decadência moral eram resultado de uma religião errada. A nação está socialmente desarrumada porque sua relação com Deus está errada. Os males que assolam a sociedade são conseqüência do seu afastamento de Deus. Isaltino Filho está correto quando diz que Miquéias não é um economista nem um sociólogo; é um profeta, um pregador da Palavra de Deus. Ele analisa a vida do seu povo pela revelação divina. A decadência da religião não era tanto uma questão litúrgica, mas um abandono da ética social.

3. Uma mensagem de promessa de restauração

Miquéias não apenas deu o diagnóstico e o remédio, mas também prometeu a cura eficaz. Denunciar o pecado sem chamar o povo ao arrependimento produz desespero e não esperança. Onde há arrependimento há também restauração. Miquéias não é um profeta pessimista como pensam alguns eruditos. Ele sempre oferece uma porta de saída. Ele sempre anuncia o escape da graça. A misericórdia de Deus prevalece sobre sua ira. Sua graça é maior do que nosso pecado.

James Wolfendale diz que na mensagem de Miquéias Deus tempera julgamento com misericórdia. Ele disciplina Sião, mas o Redentor vem para Sião como um homem de Belém da Judéia, e como o Poderoso Conquistador que subjugará seus inimigos e então, Jerusalém será a Igreja mãe da cristandade. O templo será destruído, mas um edifício mais nobre será erguido em suas ruínas. A lei se cumprirá no evangelho.

IV. AS SUAS ÊNFASES

O profeta Miquéias é uma fonte de onde jorra muitas verdades importantes. Queremos destacar algumas aqui.

1. As cidades são redutos de pecado e opressão

Miquéias era um homem do campo, procedente de uma pequena vila. Longe de ficar acanhado nos grandes centros urbanos de Samaria e Jerusalém, fez um diagnóstico preciso da maldade dessas cidades e ergueu sua voz para denunciar o fato (1.5; 5.11; 6.9). As cidades, como centros nevrálgicos do poder político, econômico, judiciário e religioso estavam entregues à violência e à corrupção.

2. Quando os maus governam, o povo geme

Miquéias denuncia os reis, os juízes, os profetas e os sacerdotes. A liderança civil e religiosa estava levedada pelo fermento da corrupção. O direito do justo era negado. A justiça era torcida. O pobre era oprimido enquanto os ricos se refestelavam na sua ensandecida cobiça.

Gerard Van Groningen pontua o ministério confrontador de Miquéias à liderança religiosa e política de sua nação. Em primeiro lugar, ele confrontou os sacerdotes (3.11). Embora estes recebessem seu sustento das ofertas do povo (3.3), eram gananciosos e injustos. Eles juntavam-se aos outros líderes, em vez de protestar contra os seus pecados. Em segundo lugar, Miquéias também advertiu os profetas (2.6). Esses pseudoprofetas falavam de acordo com os desejos do povo, prometendo-lhes prosperidade (2.11). Eles desviavam o povo, proclamando paz àqueles que pagavam para ouvir a sua mensagem (3.5). Eles recebiam dinheiro para abrir as cortinas do futuro, dando falsas esperanças ao povo (3.11). Em terceiro lugar, Miquéias confrontou os reis. O profeta camponês advertiu que desastre e desgraça viriam sobre os reis (1.14-16). Ele denunciou os líderes de Jacó por devorarem aqueles a quem deveriam pastorear (3.1-4). Ele acusa os reis de serem injustos e maus (3.9-11).

3. O pecado sempre atrai o juízo divino

A opressão e a injustiça social não ficarão impunes. Aquilo que os ricos tomam com violência dos pobres, servirá de combustível para sua própria destruição. Deus não inocentará o culpado. Samaria foi cercada, saqueada e levada cativa. Os ricos perderam suas terras, suas casas, seus bens e foram arrastados cativos para uma terra estranha. Jerusalém não aprendeu a lição e Deus, também, a entregou mais tarde nas mãos do rei da Babilônia.

4. A decadência moral é a ante-sala do desastre político

Israel e Judá caíram nas mãos dos inimigos, porque antes já tinham caído na prática do pecado. O pecado é o opróbrio das nações. O Império Romano só caiu nas mãos dos bárbaros porque já estava podre por dentro. As grandes nações da atualidade, que já foram vanguardas dos valores morais estão pavimentando o caminho da sua decadência, ao se capitularem a toda sorte de devassidão moral. Se não aprendermos com as lições da história, repetiremos os mesmos erros e sofreremos as mesmas trágicas conseqüências.

5. A soberania de Deus abrange não apenas o seu povo, mas todas as nações

A primeira ênfase teológica de Miquéias é a soberania de Deus (1.2). Para Miquéias o Senhor efetua seu propósito soberano nas nações assim como faz na vida do seu povo. Seu governo é sobre todo o universo. Ele controla e dirige todas as nações. Ele está assentado sobre um alto e sublime trono e ninguém escapa de seu onisciente escrutínio nem do seu governo absoluto e soberano.

6. A misericórdia de Deus é mais profunda do que o abismo mais profundo do pecado

A mensagem de Miquéias não fecha as cortinas da esperança. Ele mostra o caminho de Deus para os que andam errantes (6.8). Ele anuncia a graça e faz tremular o estandarte da misericórdia divina para os pecadores (7.18-20). Onde o pecado abundou, superabundou a graça!

7. O Deus do pacto é fiel à sua aliança

Miquéias põe no velador a candeia da gloriosa doutrina do pacto. O povo de Judá é disciplinado e não destruído. O povo de Deus recebe perdão e não condenação. E isso, porque Deus é fiel à sua aliança feita a Abraão, Moisés e Davi. Ainda que sejamos infiéis, Deus permanece fiel, porque não pode negar a si mesmo. Deus é imutavelmente fiel aos compromissos do pacto. Ele é consistente com sua natureza e é da sua natureza ter prazer na misericórdia e ser rico em perdoar (7.18-20).

8. O futuro não é uma corrida rumo ao desconhecido, mas uma agenda traçada por Deus

Deus escreve a história antes de ela acontecer. A história não é cíclica nem está sem rumo. Ela segue rigorosamente a agenda traçada por Deus. Ele conhece o amanhã desde agora. Nada escapa ao seu controle. Digno de nota é o fato de que nenhum profeta do Antigo Testamento teve maior capacidade para ver o futuro do que Miquéias. Entre as suas predições, encontram-se a queda de Samaria em 722 a.C. e a destruição de Jerusalém, ocorrida em 586 a.C. Também em suas predições estão o cativeiro babilônico de Judá e seu retorno. Foi esse profeta camponês que previu o nascimento do Messias na pequena cidade de Belém.

Rev. Hernandes Dias Lopes




“Mas aquele que considera atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bem-aventurado no que realizar.”
(Tiago 1:25)

Programação Semanal :

Secretaria:

de segunda à sexta, de 8h às 12h e das 14h às 18h

Cultos:

domingos às 9h e às 19h

Escola Dominical:

domingos às 9h45

Doutrinário:

quartas-feiras às 19h30

Reuniões de Oração:

terças-feiras às 6h30 e às 15h

Expediente Pastoral:

de segunda à sexta, de 8h às 12h